Olha, quando a gente pensa nesse objetivo da BNCC, "recontar histórias ouvidas", pra mim é sobre proporcionar à criança uma experiência rica de imaginação e expressão. A ideia não é a criança decorar a história e repetir igualzinho, mas sim usar a imaginação pra viver aquela história de novo, do jeito dela, sabe? As crianças de quatro a cinco anos são cheias de criatividade. Elas gostam de criar, reinventar e até misturar histórias. Nesse processo de recontar, elas exercitam a memória, a linguagem e também a capacidade de se expressar, sem aquela pressão de ter que "acertar".
Aqui na minha turma, eu procuro sempre trazer materiais que incentivem essa imaginação. Uma coisa que faço é criar um ambiente acolhedor pra escuta de histórias. Isso já é o início do processo. As crianças sentam em roda e eu conto uma história, usando muita expressão e entonação diferente pra cada personagem. Depois, vem a mágica: o momento do reconto, que acontece de várias formas.
Vou te contar sobre três propostas que eu organizo por aqui.
A primeira é chamada "Teatro das Sombras". Eu junto um monte de panos coloridos, palitos de churrasco e papel cartão preto. A gente faz um mini teatro onde as crianças criam as silhuetas dos personagens da história que ouvimos. A sala fica escura e só uma luz pequena ilumina o pano onde as sombras aparecem. As crianças ficam fascinadas! Essa atividade pode durar uns 30 a 40 minutos porque elas ficam muito envolvidas. O pequeno Lucas, por exemplo, ama inventar vozes diferentes pros personagens enquanto mexe os bonequinhos no teatro. Eu fico mediando só pra ajudar com algum palito que cai ou papel que rasga, mas deixo eles conduzirem essa brincadeira.
Outra proposta que funciona bem é o "Jardim das Histórias". Eu levo as crianças pro pátio, onde temos um espaço com areia, folhas secas, pedrinhas e gravetos. Contamos uma história sobre uma floresta encantada e depois cada criança escolhe elementos naturais pra montar um pedacinho da história na areia. Tem sempre alguém que decide fazer um rio com água e folhas ou uma caverna com pedras — como foi o caso da Ana na última vez que fizemos isso. Ela até achou uns insetinhos por ali e quis incluir eles na história dela! O legal é que elas recontam enquanto montam esses cenários. Dura mais ou menos uma hora, e eu fico só observando, perguntando sobre o que estão criando, incentivando a troca de ideias entre elas.
Por fim, tem a proposta do "Livro Coletivo". Eu uso papel kraft grande e canetinhas coloridas. Cada criança tem a oportunidade de desenhar uma cena da história que contamos juntos na roda. Eu vou escrevendo o que elas me contam sobre cada desenho. Terminamos com um livro grande feito por todos nós! Na última vez, o Pedro desenhou o dragão voando acima do castelo e disse: "Helena, escreve aí que ele tá protegendo as pessoas". Esse tipo de iniciativa faz as crianças se sentirem autoras mesmo — é surpreendente como elas se empolgam em contar suas versões da história.
Então, é isso: na Educação Infantil, tudo gira em torno das vivências e interações. As crianças recontam histórias não só com palavras, mas com gestos, brincadeiras e muita criatividade. E nessas propostas eu vejo tudo isso acontecendo: elas interagem umas com as outras nas brincadeiras, se expressam livremente nos recontos e ampliam seu repertório imaginativo.
Cada reconto é único porque cada criança traz sua visão particular da história. E isso é justamente o mais bonito: perceber como cada um ali vive aquele mundo imaginário à sua maneira.
Espero ter ajudado compartilhando essas ideias! Se tiver perguntas ou quiser trocar mais figurinhas sobre o que fazemos por aqui, estou por aqui pro que precisar. Um abraço!
Ah, e assim mesmo, gente. A gente cria um clima gostoso na hora da contação, e dali já começam a surgir os sinais de que a experiência tá mobilizando a aprendizagem. E é no dia a dia que eu vou observando como as crianças se apropriam dessas histórias. Elas mostram de várias maneiras, viu? Tem criança que repete uma frase ou expressão da história em outro momento do dia, ou quando tá brincando com os colegas. Outras vezes vejo pelos gestos... Maria, por exemplo, fica imitando o movimento do personagem preferido dela da história enquanto brinca no parque. Esses são sinais preciosos que eu fico de olho.
E tem também aqueles momentos em que as crianças começam a misturar uma história com outra ou criam suas próprias versões. Outro dia o Pedro pegou uma boneca e disse que era uma princesa dragão que queria salvar o príncipe. Olha que coisa mais linda essa inversão de papéis! Esse gesto dele já mostra como ele tá se apropriando da ideia de recontar histórias, trazendo elementos novos. Eu vou registrando essas falas e gestos em um caderno que mantenho sempre por perto ou, quando possível, tiro uma foto ou faço um vídeo curtinho. Esses registros são fundamentais pra eu conseguir ajustar as próximas propostas de forma que continuem desafiadoras e instigantes pras crianças, mas sempre respeitando o tempo de cada uma.
E quando falamos dos direitos de aprendizagem que esse objetivo mobiliza... Eu diria que conviver, brincar e expressar são os mais evidentes aqui. Conviver porque, ao recontar histórias, as crianças estão constantemente dialogando entre si, negociando personagens e enredos nas brincadeiras que inventam. Um exemplo disso é quando formam um grupinho pra recontar juntas a história ou inventam jogos baseados nas histórias ouvidas - é lindo ver como elas se organizam pra decidir quem vai ser quem!
Já brincar é a essência de todo esse processo. Elas não só escutam a história, mas vivem ela através do faz de conta. A Manuela esses dias pegou algumas panelinhas e começou a recriar a cena do banquete de uma das histórias que contamos. Era cada detalhe! E esse brincar, essa liberdade pra criar, é onde mora a magia da infância.
Agora, expressar... Esse é visto claramente quando elas soltam a imaginação, seja na fala, no desenho ou na dramatização das histórias. O Davi às vezes prefere desenhar as partes da história em vez de falar sobre elas — e isso também é expressão!
E com o João e a Bia é claro que temos algumas adaptações. O João tá com suspeita de TEA e tem suas particularidades na interação social. Então eu procuro usar cartões com figuras dos personagens das histórias pra ele poder escolher qual ele quer ser ou qual parte da história quer explorar. Isso ajuda ele a se engajar na atividade sem ficar ansioso. Já com a Bia, que tem um atraso de linguagem, eu costumo repetir partes das histórias com ela e usamos bastante imagens e objetos concretos pra facilitar a compreensão e expressão dela.
No espaço, eu organizo cantinhos onde eles possam vivenciar as histórias de diferentes formas: tem lugar pra desenhar, pra dramatizar e até cantinho do silêncio pros momentos em que eles querem só ouvir novamente uma parte da história gravada. O tempo também é flexível: se a Bia precisa de mais tempo pra entender ou se tá gostando muito de uma parte específica, a gente não apressa.
Sabe, é um trabalho constante de observar e ajustar, sempre respeitando o jeito único de cada criança aprender e expressar sua criatividade. E assim vamos caminhando...
Espero ter contribuído com vocês com minhas experiências aqui da sala! Fiquem à vontade pra compartilhar também como vocês têm trabalhado essas questões por aí. Vamos trocando ideias e fortalecendo nossa prática juntas! Até mais!