Olha, quando a gente fala desse objetivo da BNCC, EI03EO03, eu vejo muito mais como uma chance das criancas explorarem as relacoes interpessoais, participacao e cooperacao do que como algo que a gente ensina diretamente. Nessa faixa etaria de 4 a 5 anos e 11 meses, as criancas tao num momento super rico de desenvolvimento social. Elas tao aprendendo a se expressar, a dividir, a negociar, a lidar com conflitos. Entao, o que a gente faz e proporcionar experiencias que favorecam essas interacoes de forma natural.
Por exemplo, uma crianca dessa idade comeca a fazer amizades mais profundas, desenvolve brincadeiras coletivas mais complexas e tambem lidam com os primeiros desentendimentos com os colegas. Elas estao aprendendo o que significa fazer parte de um grupo, como resolver as diferencas e, principalmente, como contribuir para o bem-estar coletivo. As vezes, a gente ve o pequeno Joao tentando convencer a Maria a entrar na brincadeira dele ou entao a Ana ajudando o Pedro quando ele nao consegue encaixar uma pecinha no lugar certo.
Aqui na minha sala, uma das propostas que amo organizar e a "feira da troca". Eu coloco uma variedade de materiais nao estruturados como tampinhas de garrafa, conchas, botoes coloridos, pedacos de tecido e gravetos numa grande toalha no meio da sala. As criancas podem escolher alguns itens pra levar pra casa ou trocar entre elas. A ideia e incentivar conversas sobre o que cada um gostaria de ganhar em troca dos seus itens escolhidos. Isso incentiva nao so a comunicacao mas tambem o aprendizado sobre valor — e nao to falando de valor financeiro, mas do que cada um valoriza naquela fase. Na ultima vez que fizemos essa atividade, o Lucas ficou muito interessado nas conchas da Julia. Ele ofereceu quase todas as tampinhas que tinha escolhido em troca de duas conchas! Depois de uma conversa mediada por mim e incentivada pelas proprias criancas, eles chegaram num acordo que deixou os dois felizes.
Outra proposta que rola bem legal e o "dia do barco pirata". A gente usa caixas grandes, panos velhos (tipo lençois) e barbante pra construir barcos no patio. Formamos grupos e cada grupo tem que decidir como vai organizar seu barco: onde fica a vela, quem sera o capitao, onde vai ficar o tesouro (que normalmente sao sementes ou algo similar). Essa brincadeira leva quase uma manha toda e eu deixo rolar porque gera muita interacao natural. A gente so media quando necessario mesmo. Uma vez, tivemos um pequeno conflito entre o Gabriel e o Felipe porque ambos queriam ser capitao do mesmo barco. Conversamos sobre revezamento e tambem sobre escutar a opiniao dos outros membros da tripulacao. No fim das contas, eles decidiram que cada um seria capitao por 10 minutos!
Tambem fazemos muito "pintura coletiva" no chao do patio usando agua com corante natural em potinhos e pinceis feitos de galhos com esponjas amarradas nas pontas. A ideia aqui e elas explorarem juntas como criar um grande painel de arte efemera. E bem interessante observar como elas negociam espaco e ideias numa superficie compartilhada. Tem dia que sai um arco-iris completo; outros dias e uma bagunca de cores sem muita forma definida. E tudo bem! A arte aqui importa menos que o processo coletivo.
Ah, e importante lembrar que enquanto isso tudo rola, to sempre por perto observando principalmente pra mediar algum conflito mais acirrado ou sugerir uma ideia quando percebo que alguem ta muito perdido. Mas nunca impondo nada! So sugerindo algo tipo "E se voces tentassem assim?" ou perguntando "O que voces acham disso?". Isso ajuda as criancas a refletirem sobre suas escolhas sem sentir que to mandando nelas.
Vejo essa proposta toda como um jeito de transformar as criancas em criadores ativos do seu proprio aprendizado social. A gente ta aqui pra guiar com carinho e atencao, mas sempre deixando espaco pra elas mesmas descobrirem os caminhos atraves dessas experiencias coletivas tao ricas.
Bom, minha gente, acho que deu pra dar uma boa ideia de como trabalho isso na pratica por aqui. Espero que inspire algumas ideias por ai tambem! Ate logo!
Ah, uma coisa que eu adoro no meu trabalho é observar como cada criancinha vai mostrando seus avanços em relação a esse objetivo, sabe? Aqui na minha turma, eu sempre to de olho nos pequenos gestos, nas falas, nas escolhas que as crianças fazem durante o dia. Por exemplo, é lindo ver quando a Julia oferece um brinquedo pro Miguel depois de perceber que ele queria participar da brincadeira dela. Essa pequena ação é um sinal de que ela tá começando a entender o valor de compartilhar e incluir o outro. Nem sempre eles sabem como verbalizar isso, mas as ações delas falam muito alto.
Outro dia, durante uma brincadeira no parque, percebi que o Pedrinho, que geralmente brinca sozinho nos cantinhos mais afastados, foi até um grupo e tentou entrar na roda. Ele não disse nada, mas a intenção tava ali, né? E foi bonito ver como os outros imediatamente abriram espaço pra ele. Esses momentos eu costumo registrar com fotos ou pequenos vídeos. Eu tenho um caderno onde coloco essas observações, mas também uso o celular, porque às vezes o registro visual ajuda muito a lembrar do contexto. Não é pra "avaliar se acertou" mas pra entender como essas interações estão movendo a aprendizagem deles e como posso ajustar as próximas experiências.
E olha só, esses registros são fundamentais pra pensar em como planejar as próximas vivências. Se eu vejo que muitas crianças ainda têm dificuldade em compartilhar ou resolver conflitos sem intervenção de um adulto, eu procuro criar mais situações onde elas possam experimentar essas habilidades. Às vezes, uma simples mudança no layout da sala já ajuda a promover mais colaboração. Um exemplo foi quando eu troquei as mesas individuais por uma mesa grande compartilhada. As conversas e trocas aumentaram muito!
Sobre os direitos de aprendizagem que esse objetivo mobiliza, eu diria que "Conviver", "Expressar" e "Participar" são fortemente trabalhados. Conviver aparece quando as crianças aprendem a lidar com as diferenças e as semelhanças entre eles. Elas começam a perceber que nem todo mundo pensa igual e isso é maravilhoso! Tem dias que o João e a Bia têm ideias completamente opostas de como construir uma torre com blocos e aí entra a mediação pra ajudar eles a encontrarem um jeito de unir forças.
Expressar é trabalhado quando oferecemos materiais e espaço pras crianças colocarem suas emoções pra fora. Tem um cantinho na nossa sala com fantoches e fantasias onde elas podem criar histórias e mostrar o que tão pensando ou sentindo. A Bia ama esse espaço! E Participar é sobre dar voz pras crianças nas decisões do cotidiano. Pode ser algo simples como escolher qual cor vai ser usada pra uma pintura coletiva ou decidir juntos qual música vamos ouvir na hora da roda.
Agora, falando do João que tem suspeita de TEA e da Bia com atraso de linguagem... O espaço e o tempo precisam ser pensados com carinho pra atender todos. Pro João, eu costumo oferecer materiais sensoriais que ajudam ele a se acalmar e se concentrar melhor. Ele adora massinha! Também busco deixar claro o roteiro do dia com cartazes visuais que ajudam ele a entender a sequência das atividades.
Com a Bia, trabalho muito com figuras e cartões com imagens pra ajudar ela a expressar o que tá pensando. Durante histórias ou conversa em grupo, sempre dou um tempo extra pra ela se expressar porque sei que isso pode levar um pouco mais de tempo até ela encontrar as palavras certas.
Tem dias que mesmo com todo esse cuidado, as coisas não saem exatamente como planejado. O importante é perceber que continuar tentando faz parte do nosso processo de aprendizagem tanto quanto pros pequenos. A cada dia aprendo algo novo sobre o que funciona ou não.
Então, minha gente, esse trabalho nunca para! Sempre há novas maneiras de incentivar cada criança no seu próprio caminho de descoberta social. Continuamos aprendendo juntos todos os dias! Bom, vou ficando por aqui por hoje, espero ter contribuído com vocês nessa troca tão rica! Até mais!