Olha só, gente, esse objetivo da BNCC que fala sobre levantar hipóteses em relação à linguagem escrita e realizar registros de palavras e textos é uma delícia de trabalhar com as crianças pequenas. Quando a gente fala de levantar hipóteses, não é no sentido de a criança aprender um conteúdo formal — até porque com essa idade, né, a coisa é mais fluida. O que acontece é que elas começam a se interessar por letras, por como se escreve o nome delas, o nome dos coleguinhas, e até mesmo palavras que elas escutam no dia a dia. É como se elas estivessem desvendando um mistério, sabe? Elas pensam "como será que isso se escreve?", e aí vão arriscando, tentando, testando possibilidades.
Nessa faixa etária, por volta de 4 a 5 anos, as crianças estão muito curiosas sobre tudo ao seu redor e começam a perceber que aqueles rabiscos que fazem podem ter um significado. O que acontece na prática é que, muitas vezes, elas chegam com desenhos cheios de letrinhas inventadas e dizem: "Tia Helena, olha, escrevi uma carta pra você!" ou "Isso aqui é o nome do meu cachorro." E aí nosso papel é acolher essa escrita espontânea delas e incentivar mais ainda.
Ah, e como eu adoro propor essas experiências aqui na minha sala! Vou contar três propostas que a gente tem feito por aqui.
A primeira proposta é a “Caixa de Escritas”. Gente, essa eu comecei a fazer depois que vi como as crianças ficaram interessadas num papelão que sobrou de uma caixa grande. Aí juntei vários materiais não estruturados: tampinhas de garrafa, penas coloridas, pedaços de tecido, cola colorida e canetas hidrográficas. Deixei tudo isso dentro de uma caixa grandona no canto da sala. O espaço fica todo aberto pra elas explorarem à vontade. Não tem tempo fixo, viu? Vai do interesse delas no dia. Na última vez que fizemos isso, o Gabriel pegou inúmeras tampinhas e fez um monte de "carimbos" no papel dizendo que estava escrevendo uma história sobre carros. Eu só fui mediando com perguntas tipo: "E o que acontece nessa história?" ou "Quem são os personagens?" Isso dá oportunidade pra eles expandirem a imaginação sem pressão.
A segunda proposta é o “Varal das Palavras”. Espaço ao ar livre é ótimo pra isso. Peguei algumas cordas e pendurei entre duas árvores no pátio da creche. As crianças têm à disposição pregadores coloridos e fichas feitas com papéis reciclados cortados em formatos diferentes. Nos papéis vão escrevendo o que quiserem — pode ser nome, palavra inventada — e depois penduram no varal. Esse varal fica lá por dias! Uma coisa linda ver como eles interagem entre si comentando as palavras dos outros. Tipo quando a Ana Clara viu uma ficha da Sofia com desenhinhos e um monte de 'Z', 'C' e disse: "Olha isso parece um zoológico!" Elas mesmas associam palavras com os desenhos que fazem.
Por fim, tem a “Estação de História”. Aqui eu crio um cantinho aconchegante na sala, só com almofadas e mantas no chão. Deixo por ali algumas caixas com elementos naturais tipo gravetos pequenos, pedras lisas que coletamos nas caminhadas pela comunidade e pedacinhos variados de papel. Nesse ambiente, eles podem criar suas histórias orais coletivamente enquanto rabisquem o que consideram ser as partes mais importantes da história no papel. Na última vez, o João pegou logo um graveto maior e disse: "Esse aqui é meu lápis gigante! Tô escrevendo tudo sobre o dragão vermelho." Eu vou escutando e incentivando: "E o dragão faz o quê com isso?" ou "Como termina a aventura dele?” É maravilhoso ver a criatividade deles florescendo assim.
Nesse processo todo, minha gente, a gente vê como esses momentos são ricos em interação entre as crianças e nas brincadeiras que surgem naturalmente. Cada proposta abre espaço para elas se expressarem do jeito delas sem medo de errar ou julgamento. E isso é fundamental! Não tem certo ou errado nessa fase — deve ter espaço pra elas experimentarem à vontade.
Pra encerrar nossa conversa (olha só como já falei demais!), queria reforçar que cada criança tem seu tempo e sua forma única de se expressar. A gente tá ali pra mediar e proporcionar esses ambientes ricos em possibilidades. Ver os olhos deles brilhando quando conseguem expressar algo novo é nossa maior recompensa nesse trabalho!
Espero ter ajudado por aí! Qualquer coisa tô aqui pra trocar mais ideias! Até mais!
a fazer vários questionamentos e observações que são muito valiosos. É aí que entra o nosso papel de observar e registrar o desenvolvimento das crianças, viu? Eu gosto muito de ficar atenta aos pequenos gestos e falas durante as atividades. Às vezes, tô ali no cantinho, só observando como elas estão interagindo com o material, como lidam com os desafios que aparecem, como conversam entre si — e isso tudo me dá pistas sobre o que tá acontecendo no processo de aprendizagem delas.
Por exemplo, teve um dia que a gente tava fazendo uma atividade bem simples: escrever o próprio nome com letras móveis. Aí a Bia, que tem um atraso de linguagem, tava meio hesitante no começo. Ela olhou pra mim e apontou pras letras, como quem diz "e agora?". Eu fui lá, me agachei ao lado dela e mostrei a primeira letra do nome dela. Ela pegou a letra e colocou na mesinha. A cada nova letra que eu mostrava, Bia fazia um som, tipo tentando falar a letra, sabe? Foi incrível ver como ela, mesmo com dificuldade na fala, tava se esforçando pra participar da atividade.
Já o João, que tem suspeita de TEA, se interessa muito por formas e cores. Então, quando eu proponho atividades que envolvem letras ou números, sempre tento relacionar com essas características. Nesse dia das letras móveis, eu organizei as letras por cor e deixei ele explorar livremente antes de começar a atividade em si. Ele se interessou muito mais dessa forma e conseguiu montar o nome dele todinho! Eu percebi que ele gosta de desafios visuais e isso ajuda muito.
Esses registros do dia a dia são fundamentais pra entender esse desenvolvimento. Eu uso um caderninho onde anoto essas observações: quem mostrou interesse no quê, quem conseguiu avançar em determinada habilidade. Às vezes tiro fotos ou faço vídeos curtos (sempre com autorização dos responsáveis) pra depois refletir sobre o que foi vivenciado. Essas imagens são ótimas porque capturam detalhes que a gente às vezes nem percebe na hora. Com esses registros em mãos, eu consigo ajustar futuras propostas pra atender melhor às necessidades do grupo.
Sobre os direitos de aprendizagem que esse objetivo mobiliza... Sem dúvida destaco Brincar, Participar e Expressar. Na hora das brincadeiras livres com materiais de escrita — como as famosas "listinhas de mercado" que eles adoram fazer — vejo muito claramente esses direitos em ação. As crianças estão ali brincando de ser "gente grande", imitando pais e mães escrevendo listas de compras, e cada uma participa à sua maneira: algumas desenham produtos imaginários, outras fazem rabiscos que dizem ser palavras, e tem aquelas que até tentam copiar uma ou outra letra que já reconhecem. Esse momento é muito rico porque além de brincar, elas estão expressando suas ideias e participando ativamente da vida cotidiana de uma forma lúdica.
Ah, outra coisa bacana é quando a gente faz roda de conversa sobre as histórias que eles criaram ou os desenhos. Eles têm tanta coisa pra contar! É nesse espaço que vejo muita expressão acontecendo. Até a Bia, mesmo com suas limitações de fala, tenta se comunicar apontando pro desenho ou fazendo sons enquanto eu vou ajudando a traduzir o que ela quer dizer pro grupo.
Pra tornar essas experiências mais acessíveis pro João e pra Bia, eu faço algumas adaptações no planejamento. Por exemplo, eu sempre deixo à disposição materiais variados — como letras em EVA de cores diferentes para o João e cartões com imagens para ajudar a Bia a associar palavras ao seu significado. O espaço também é adaptado: organizo as mesas em pequenos grupos porque sei que isso facilita a comunicação e interação entre eles. E claro, o tempo é dado com flexibilidade: não é porque uma criança termina rápido que as outras precisam correr também.
O que funcionou bem foi quando integrei atividades musicais nas propostas de escrita — cantar uma música sobre os dias da semana antes de escrevermos juntos no mural foi um sucesso! A Bia ficou observando atentamente os coleguinhas cantarem e depois tentou acompanhar com alguns sons; já o João se encantou com as notas musicais desenhadas no quadro.
Ainda tô tentando novas formas de engajar mais o João nas atividades de grupo — ele tem momentos em que prefere ficar sozinho — então tô buscando novas estratégias aí. E sobre a Bia, continuo incentivando sua expressão oral com muita paciência e carinho.
E é isso minha gente! Espero ter contribuído um pouquinho com vocês aí nesse desafio diário que é trabalhar na educação infantil. A gente vai trocando ideias e crescendo juntas nessa caminhada. Um abraço a todas!