Olha, quando a gente fala da habilidade EF69AR21, na prática, estamos falando de fazer os meninos entenderem e sentirem a música mais do que só ouvir. É sobre eles identificarem sons diferentes, perceberem como aqueles sons são feitos e como dá pra brincar com isso pra criar algo novo. Tipo, se na série anterior eles já estavam escutando música e comentando sobre o que gostavam ou não, e talvez já pegavam uns ritmos ali no ouvido, agora é o momento de aprofundar. Eles precisam conseguir reconhecer um violino de um violão, uma flauta de uma gaita, essas diferenças são importantes. E mais do que isso, saber como esses sons juntos podem criar algo novo. É meio mágico quando eles percebem que podem ser criadores de música, mesmo que seja só uma batucada na mesa.
Bom, vou contar aqui como eu trabalho isso em sala com três atividades que rolam bem. Primeiro a gente faz uma coisa simples com materiais do dia a dia: garrafas PET. Cada aluno traz uma garrafa de casa e a gente enche com quantidades diferentes de água. A ideia é criar uma espécie de xilofone improvisado. Aí eu organizo os meninos em grupos de quatro ou cinco e deixo eles experimentarem os sons das garrafas. Isso leva umas duas aulas, porque na primeira eles ficam fascinados só com o barulho e na segunda começam a entender como mudar o som adicionando ou tirando água. Uma vez, o João, sempre quietinho, descobriu que se ele batia numa garrafa enquanto passava o dedo na borda de outra, criava um som bem diferente. Ele ficou todo animado com a descoberta e até ajudou os amigos a fazerem o mesmo.
A segunda atividade é a "orquestra da sala". Eu levo alguns instrumentos básicos: algumas flautas doces, pandeiros, triângulos e chocalhos feitos com latinhas e pedrinhas. Distribuo os instrumentos aleatoriamente pela sala e peço pra turma se organizar em duplas ou trios. O barulho é grande no começo, mas depois eles começam a entender que precisam se ouvir pra tocar juntos. Essa atividade costuma levar umas três aulas porque no final peço pra cada grupo criar uma pequena apresentação pra turma toda assistir. Na última vez que fizemos isso, a Maria e o Lucas se superaram e fizeram uma apresentação incrível misturando flauta e pandeiro, criando um ritmo bem legal. Eles se empolgaram tanto que solicitaram apresentar novamente no intervalo da escola.
A terceira atividade é mais voltada pra apreciação musical. Eu escolho algumas músicas de gêneros bem diferentes e peço pros alunos fecharem os olhos enquanto escutam. Depois a gente conversa sobre os diferentes instrumentos que eles conseguiram identificar e quais sentimentos aquelas músicas despertaram neles. Isso geralmente é feito em uma aula só e é sempre muito legal ver as percepções deles mudando ao longo do tempo. Da última vez, coloquei uma peça clássica do Beethoven e muitos deles nunca tinham ouvido algo assim. O Pedro comentou que a música parecia contar uma história sem precisar de palavras, o que abriu espaço pra uma conversa bem interessante sobre como a música pode transmitir emoções.
Essas atividades são maneiras legais porque não exigem materiais complicados ou caros e ainda assim conseguem envolver toda a galera. Claro que tem dia que nada funciona direito – já tive dia em que as garrafas quebraram ou alguém tocou forte demais – mas no geral dá pra ver eles crescendo musicalmente aos pouquinhos. E é isso que importa: ver os meninos entendendo mais do mundo através da música.
Bom, é isso aí pessoal! Espero que essas ideias ajudem por aí também! Qualquer coisa to por aqui pra trocar mais figurinhas!
E mais do que identificar, é sobre eles realmente entenderem como essas diferenças podem mudar a música inteira. Então, como eu sei que eles aprenderam? Bom, muitas vezes, é só observando mesmo. Quando tô circulando pela sala, escuto as conversas dos meninos. Outro dia, por exemplo, eu vi a Ana explicando pro Pedro a diferença de som entre um clarinete e um saxofone. "O clarinete é mais suave, parece que tá contando um segredo", ela disse pra ele. E o Pedro ficou ali, pensativo, e depois disso começou a prestar mais atenção nas músicas que têm esses instrumentos.
Outro sinal é quando os meninos começam a relacionar o que aprendem na aula com o que escutam fora dali. Tipo assim, o João chegou um dia falando de uma música que ouviu no rádio e dizendo que agora consegue identificar a guitarra elétrica e saber quando ela tá fazendo um solo ou só acompanhando. Isso mostra que ele tá prestando atenção e entendendo mesmo o que a gente tá trabalhando.
Agora, sobre os erros mais comuns, tem uns clássicos. A Maria sempre confunde o som da tuba com o trombone. Ela diz que "os dois são muito graves", mas não percebe que o timbre é bem diferente. Aí eu peço pra ela ouvir novamente e reparar nos detalhes que fazem cada um único. E tem o Lucas que, quando vai criar uma composição usando sons diferentes, às vezes fica empolgado demais e coloca tudo junto, sem pensar na harmonia. A sala toda vira uma bagunça sonora! Ele precisa aprender a dosar e escolher os momentos certos pra cada som entrar.
Esses erros acontecem porque é muita informação nova e a ansiedade de usar tudo de uma vez é grande. O que eu faço é incentivar eles a experimentarem em partes menores antes de juntarem tudo. Dou exemplos de músicas simples e peço pra eles identificarem cada som separado antes de misturar.
Com o Matheus, que tem TDAH, eu preciso fazer algumas adaptações nas atividades. Ele se dispersa fácil, então deixo as instruções bem diretas e curtas. Uso muito material visual e auditivo porque assim ele consegue se concentrar melhor. Uma coisa que funciona bem com ele é deixar ele mexer com instrumentos físicos sempre que possível. Dá pra ver que ele aprende melhor quando tá envolvido por completo na experiência.
Já com a Clara, que tem TEA, eu costumo dar a ela um tempo extra pra processar as informações. Ela precisa de um ambiente mais tranquilo pra ouvir os sons sem se perder nos detalhes excessivos. Às vezes ofereço fones de ouvido com redução de ruído pra ajudar ela a se focar só no que interessa na atividade. Outra coisa que notei é que ela gosta de padrões fixos, então tento usar isso ao nosso favor nas tarefas musicais.
Algumas coisas não funcionaram tão bem no começo. Tentei uma vez colocar o Matheus em atividades em grupo muito grandes e ele ficou perdido no meio da bagunça, mal conseguiu contribuir. Agora faço grupos menores ou atividades individuais quando necessário. E pra Clara, tinha vezes em que eu oferecia muitos estímulos visuais achando que ajudaria, mas isso acabava atrapalhando ainda mais.
Enfim, cada dia é uma descoberta nova com esses meninos. A gente vai ajustando as estratégias conforme eles vão mostrando o que funciona melhor pra cada um. É gratificante ver quando entendem e conseguem aplicar isso não só na aula mas no dia a dia deles também. Continuar compartilhando aqui com vocês me ajuda muito a refletir sobre essas práticas e pensar em novas ideias.
Até mais!